A Corda e a Raiz: uma reflexão sobre as graduações na Capoeira

Quando observamos a história da capoeiragem, especialmente suas manifestações anteriores ao século XX, percebemos que a relação entre os praticantes não estava estruturada pelos sistemas formais de graduação que conhecemos atualmente. O reconhecimento estava muito mais relacionado à experiência, ao conhecimento, à vivência e ao respeito conquistado dentro daquele universo cultural. A condição de mestre estava ligada ao reconhecimento de alguém como detentor de determinado saber, capaz de transmiti-lo aos seus discípulos e à comunidade.
Com o processo de organização e sistematização da Capoeira no século XX, sobretudo a partir das experiências desenvolvidas na Bahia, surgiram novas formas de ensino e de reconhecimento dos níveis de aprendizado.
Mestre Bimba, ao estruturar sua Capoeira Regional, criou um método pedagógico próprio, com sequência de ensino, batizado, especialização e cerimônia de formatura. Em seu sistema, o reconhecimento não se dava originalmente pelas cordas amarradas à cintura como hoje estamos acostumados a ver. Na formatura da Regional, por exemplo, eram utilizados lenços de seda e medalhas, sendo o lenço azul associado aos formados. Registros sobre as cerimônias de Mestre Bimba descrevem inclusive o paraninfo entregando as medalhas e as madrinhas colocando os lenços nos formandos.
Posteriormente, principalmente a partir das décadas de 1950 e 1960, diferentes experiências de organização e graduação começaram a surgir. O Grupo Senzala, formado no Rio de Janeiro na década de 1960, por jovens que não possuíam mestre começam a utilizar corda vermelha inspirados nas artes orientais.
Paralelamente, ocorreu a institucionalização da Capoeira enquanto prática desportiva. Esse processo passou inicialmente pela estrutura federativa vinculada à Confederação Brasileira de Pugilismo, antes da existência de uma confederação específica da modalidade. Posteriormente, com a organização da Confederação Brasileira de Capoeira, foram realizados congressos e seminários técnicos nacionais. Em 1993, foram estabelecidas normas de graduação utilizando principalmente as cores verde, amarela, azul e branca, criando uma sequência nacional para alunos, monitores, professores, contramestres e mestres.
Portanto, é importante compreender que o atual universo das graduações da Capoeira não surgiu de um único momento nem de uma única instituição(várias federações estaduais se reuniram). Ele é resultado de diferentes processos históricos: das formas tradicionais de reconhecimento entre mestres e discípulos, da sistematização pedagógica promovida por Mestre Bimba, das experiências desenvolvidas posteriormente pelos grupos de Capoeira e da tentativa de padronização realizada pelas instituições federativas e desportivas.
Com o passar dos anos, entretanto, muitos grupos optaram por desenvolver sistemas próprios. Surgiram diferentes cores, combinações, títulos, nomenclaturas e critérios. Aquilo que, em determinado momento, buscava estabelecer parâmetros comuns acabou convivendo com uma enorme diversidade de sistemas.
E é justamente aqui que considero necessária uma reflexão.
Não devemos discutir apenas qual cor deve vir primeiro, qual corda representa determinado estágio ou quantas graduações devem existir. A questão fundamental deveria ser outra:
O que cada graduação representa em conhecimento, experiência, responsabilidade, fundamento e compromisso com a Capoeira?
Uma corda não pode possuir mais importância do que aquilo que ela pretende representar.
O título de mestre também não deveria ser compreendido simplesmente como o último estágio de uma sequência cromática. Historicamente, ser reconhecido como mestre sempre esteve relacionado à trajetória, ao conhecimento acumulado, à capacidade de transmitir saberes e, principalmente, ao reconhecimento construído dentro da comunidade.
Nesse sentido, cabe recordar a conhecida reflexão do filósofo George Santayana, publicada em The Life of Reason: Reason in Common Sense, em 1905:
“Aqueles que não conseguem lembrar o passado estão condenados a repeti-lo.”
Tal reflexão se aplica perfeitamente ao momento atual da Capoeira.
Muitas vezes buscamos criar aquilo que já foi criado, regulamentar aquilo que já foi objeto de regulamentação ou substituir estruturas anteriores sem primeiro compreender por que elas surgiram, quais problemas pretendiam solucionar e quais consequências produziram.
A Capoeira pode e deve evoluir. Tradição não significa imobilidade. Entretanto, evolução sem conhecimento histórico corre o risco de transformar-se em descaracterização.
Precisamos ter cuidado para que a busca por novos sistemas, títulos, graduações e estruturas administrativas não seja mais importante do que a preservação dos fundamentos, da ancestralidade, da musicalidade, da ritualidade, da história e dos saberes transmitidos pelas gerações que nos antecederam.
Não existe futuro sólido quando se despreza o caminho percorrido para chegar até aqui.
Uma árvore pode crescer, ampliar seus galhos e produzir novos frutos. Mas, quanto mais cresce, mais necessita de raízes profundas e fortalecidas.
Assim também é a Capoeira.
Podemos avançar, modernizar e organizar. Mas precisamos conhecer nossa história, respeitar nossos fundamentos e fortalecer nossas raízes. Caso contrário, corremos o risco de construir muito acima do solo e quase nada abaixo dele.
Anderson Erminio dos Santos
MESTRE QUEIXADA
A.C.N.S.VII - B.PE



